LIVRO DE
JOB 
CAPITULOS
Capitulo 1
1 Havia um
homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro,
reto e temente a Deus e desviava-se do mal.
2 E nasceram-lhe
sete filhos e três filhas.
3 E o seu
gado era de sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas
de bois e quinhentas jumentas; eram também muitíssimos os
servos a seu serviço, de maneira que este homem era maior do que
todos os do oriente.
4 E iam seus
filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua
vez; e mandavam convidar as suas três irmãs a comerem e beberem
com eles.
5 Sucedia,
pois, que, decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó,
e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo
o número de todos eles; porque dizia Jó: Talvez pecaram meus
filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu coração. Assim
fazia Jó continuamente.
6 E num dia
em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também
Satanás entre eles.
7 Então
o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu
ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.
8 E disse
o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque
ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro
e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.
9 Então
respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó
a Deus debalde?
10 Porventura
tu não cercaste de sebe, a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem?
A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado
na terra.
11 Mas estende
a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não
blasfema contra ti na tua face.
12 E disse
o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua
mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás
saiu da presença do SENHOR.
13 E sucedeu
um dia, em que seus filhos e suas filhas comiam, e bebiam vinho, na casa
de seu irmão primogênito,
14 Que veio
um mensageiro a Jó, e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas
pastavam junto a eles;
15 E deram
sobre eles os sabeus, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada;
e só eu escapei para trazer-te a nova.
16 Estando
este ainda falando, veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu,
e queimou as ovelhas e os servos, e os consumiu, e só eu escapei
para trazer-te a nova.
17 Estando
ainda este falando, veio outro, e disse: Ordenando os caldeus três
tropas, deram sobre os camelos, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio
da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova.
18 Estando
ainda este falando, veio outro, e disse: Estando teus filhos e tuas filhas
comendo e bebendo vinho, em casa de seu irmão primogênito,
19 Eis que
um grande vento sobreveio dalém do deserto, e deu nos quatro cantos
da casa, que caiu sobre os jovens, e morreram; e só eu escapei para
trazer-te a nova.
20 Então
Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça,
e se lançou em terra, e adorou.
21 E disse:
Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá;
o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR.
22 Em tudo
isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.
Capitulo 2
1 E, vindo
outro dia, em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR,
veio também Satanás entre eles, apresentar-se perante o SENHOR.
2 Então
o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E respondeu Satanás
ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.
3 E disse
o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém
há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente
a Deus e que se desvia do mal, e que ainda retém a sua sinceridade,
havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem causa.
4 Então
Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: Pele por pele, e tudo quanto
o homem tem dará pela sua vida.
5 Porém
estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás
se não blasfema contra ti na tua face!
6 E disse
o SENHOR a Satanás: Eis que ele está na tua mão; porém
guarda a sua vida.
7 Então
saiu Satanás da presença do SENHOR, e feriu a Jó de
úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto
da cabeça.
8 E Jó
tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza.
9 Então
sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa
a Deus, e morre.
10 Porém
ele lhe disse: Como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de
Deus, e não receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou
Jó com os seus lábios.
11 Ouvindo,
pois, três amigos de Jó todo este mal que tinha vindo sobre
ele, vieram cada um do seu lugar: Elifaz o temanita, e Bildade o suíta,
e Zofar o naamatita; e combinaram condoer-se dele, para o consolarem.
12 E, levantando
de longe os seus olhos, não o conheceram; e levantaram a sua voz e
choraram, e rasgaram cada um o seu manto, e sobre as suas cabeças
lançaram pó ao ar.
13 E assentaram-se
com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma,
porque viam que a dor era muito grande.
Capitulo 3
1 Depois disto
abriu Jó a sua boca, e amaldiçoou o seu dia.
2 E Jó,
falando, disse:
3 Pereça
o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem!
4 Converta-se
aquele dia em trevas; e Deus, lá de cima, não tenha cuidado
dele, nem resplandeça sobre ele a luz.
5 Contaminem-no
as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; a escuridão
do dia o espante!
6 Quanto àquela
noite, dela se apodere a escuridão; e não se regozije ela entre
os dias do ano; e não entre no número dos meses!
7 Ah! que
solitária seja aquela noite, e nela não entre voz de júbilo!
8 Amaldiçoem-na
aqueles que amaldiçoam o dia, que estão prontos para suscitar
o seu pranto.
9 Escureçam-se
as estrelas do seu crepúsculo; que espere a luz, e não venha;
e não veja as pálpebras da alva;
10 Porque
não fechou as portas do ventre; nem escondeu dos meus olhos a canseira.
11 Por que
não morri eu desde a madre? E em saindo do ventre, não expirei?
12 Por que
me receberam os joelhos? E por que os peitos, para que mamasse?
13 Porque
já agora jazeria e repousaria; dormiria, e então haveria repouso
para mim.
14 Com os
reis e conselheiros da terra, que para si edificam casas nos lugares assolados,
15 Ou com
os príncipes que possuem ouro, que enchem as suas casas de prata,
16 Ou como
aborto oculto, não existiria; como as crianças que não
viram a luz.
17 Ali os
maus cessam de perturbar; e ali repousam os cansados.
18 Ali os
presos juntamente repousam, e não ouvem a voz do exator.
19 Ali está
o pequeno e o grande, e o servo livre de seu senhor.
20 Por que
se dá luz ao miserável, e vida aos amargurados de ánimo?
21 Que esperam
a morte, e ela não vem; e cavam em procura dela mais do que de tesouros
ocultos;
22 Que de
alegria saltam, e exultam, achando a sepultura?
23 Por que
se dá luz ao homem, cujo caminho é oculto, e a quem Deus
o encobriu?
24 Porque
antes do meu pão vem o meu suspiro; e os meus gemidos se derramam
como água.
25 Porque
aquilo que temia me sobreveio; e o que receava me aconteceu.
26 Nunca estive
tranquilo, nem sosseguei, nem repousei, mas veio sobre mim a perturbação.
Capitulo 4
1 Então
respondeu Elifaz o temanita, e disse:
2 Se intentarmos
falar-te, enfadar-te-ás? Mas quem poderia conter as palavras?
3 Eis que
ensinaste a muitos, e tens fortalecido as mãos fracas.
4 As tuas
palavras firmaram os que tropeçavam e os joelhos desfalecentes tens
fortalecido.
5 Mas agora,
que se trata de ti, te enfadas; e tocando-te a ti, te perturbas.
6 Porventura
não é o teu temor de Deus a tua confiança, e a tua esperança
a integridade dos teus caminhos?
7 Lembra-te
agora qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros
destruídos?
8 Segundo
eu tenho visto, os que lavram iniquidade, e semeiam mal, segam o mesmo.
9 Com o hálito
de Deus perecem; e com o sopro da sua ira se consomem.
10 O rugido
do leão, e a voz do leão feroz, e os dentes dos leõezinhos
se quebram.
11 Perece
o leão velho, porque não tem presa; e os filhos da leoa andam
dispersos.
12 Uma coisa
me foi trazida em segredo; e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.
13 Entre pensamentos
vindos de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo,
14 Sobrevieram-me
o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram.
15 Então
um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos
da minha carne.
16 Parou ele,
porém não conheci a sua feição; um vulto estava
diante dos meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz que dizia:
17 Seria porventura
o homem mais justo do que Deus? Seria porventura o homem mais puro do que
o seu Criador?
18 Eis que
ele não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui loucura;
19 Quanto
menos àqueles que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está
no pó, e são esmagados como a traça!
20 Desde a
manhã até à tarde são despedaçados; e eternamente
perecem sem que disso se faça caso.
21 Porventura
não passa com eles a sua excelência? Morrem, mas sem sabedoria.
Capitulo 5
1 Chama agora;
há alguém que te responda? E para qual dos santos te virarás?
2 Porque a
ira destrói o louco; e o zelo mata o tolo.
3 Bem vi eu
o louco lançar raízes; porém logo amaldiçoei
a sua habitação.
4 Seus filhos
estão longe da salvação; e são despedaçados
às portas, e não há quem os livre.
5 A sua messe,
o faminto a devora, e até dentre os espinhos a tira; e o salteador
traga a sua fazenda.
6 Porque do
pó não procede a aflição, nem da terra brota o
trabalho.
7 Mas o homem
nasce para a tribulação, como as faíscas se levantam
para voar.
8 Porém
eu buscaria a Deus; e a ele entregaria a minha causa.
9 Ele faz
coisas grandes e inescrutáveis, e maravilhas sem número.
10 Ele dá
a chuva sobre a terra, e envia águas sobre os campos.
11 Para pór
aos abatidos num lugar alto; e para que os enlutados se exaltem na salvação.
12 Ele aniquila
as imaginações dos astutos, para que as suas mãos não
possam levar coisa alguma a efeito.
13 Ele apanha
os sábios na sua própria astúcia; e o conselho dos
perversos se precipita.
14 Eles de
dia encontram as trevas; e ao meio dia andam às apalpadelas como
de noite.
15 Porém
ao necessitado livra da espada, e da boca deles, e da mão do forte.
16 Assim há
esperança para o pobre; e a iniquidade tapa a sua boca.
17 Eis que
bem-aventurado é o homem a quem Deus repreende; não desprezes,
pois, a correção do Todo-Poderoso.
18 Porque
ele faz a chaga, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mãos curam.
19 Em seis
angústias te livrará; e na sétima o mal não te
tocará.
20 Na fome
te livrará da morte; e na guerra, da violência da espada.
21 Do açoite
da língua estarás encoberto; e não temerás a
assolação, quando vier.
22 Da assolação
e da fome te rirás, e os animais da terra não temerás.
23 Porque
até com as pedras do campo terás o teu acordo, e as feras
do campo serão pacíficas contigo.
24 E saberás
que a tua tenda está em paz; e visitarás a tua habitação,
e não pecarás.
25 Também
saberás que se multiplicará a tua descendência e a
tua posteridade como a erva da terra,
26 Na velhice
irás à sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu
tempo.
27 Eis que
isto já o havemos inquirido, e assim é; ouve-o, e medita
nisso para teu bem.
Capitulo 6
1 Então
Jó respondeu, dizendo:
2 Oh! se a
minha mágoa retamente se pesasse, e a minha miséria juntamente
se pusesse numa balança!
3 Porque,
na verdade, mais pesada seria, do que a areia dos mares; por isso é
que as minhas palavras têm sido engolidas.
4 Porque as
flechas do Todo-Poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o
meu espírito; os terrores de Deus se armam contra mim.
5 Porventura
zurrará o jumento montês junto à relva? Ou mugirá
o boi junto ao seu pasto?
6 Ou comer-se-á
sem sal o que é insípido? Ou haverá gosto na clara
do ovo?
7 A minha
alma recusa tocá-las, pois são para mim como comida repugnante.
8 Quem dera
que se cumprisse o meu desejo, e que Deus me desse o que espero!
9 E que Deus
quisesse quebrantar-me, e soltasse a sua mão, e me acabasse!
10 Isto ainda
seria a minha consolação, e me refrigeraria no meu tormento,
não me poupando ele; porque não ocultei as palavras do Santo.
11 Qual é
a minha força, para que eu espere? Ou qual é o meu fim, para
que tenha ainda paciência?
12 E porventura
a minha força a força da pedra? Ou é de cobre a minha
carne?
13 Está
em mim a minha ajuda? Ou desamparou-me a verdadeira sabedoria?
14 Ao que
está aflito devia o amigo mostrar compaixão, ainda ao que deixasse
o temor do Todo-Poderoso.
15 Meus irmãos
aleivosamente me trataram, como um ribeiro, como a torrente dos ribeiros
que passam,
16 Que estão
encobertos com a geada, e neles se esconde a neve,
17 No tempo
em que se derretem com o calor, se desfazem, e em se aquentando, desaparecem
do seu lugar.
18 Desviam-se
as veredas dos seus caminhos; sobem ao vácuo, e perecem.
19 Os caminhantes
de Tema os vêem; os passageiros de Sabá esperam por eles.
20 Ficam envergonhados,
por terem confiado e, chegando ali, se confundem.
21 Agora sois
semelhantes a eles; vistes o terror, e temestes.
22 Acaso disse
eu: Dai-me ou oferecei-me presentes de vossos bens?
23 Ou livrai-me
das mãos do opressor? Ou redimi-me das mãos dos tiranos?
24 Ensinai-me,
e eu me calarei; e fazei-me entender em que errei.
25 Oh! quão
fortes são as palavras da boa razão! Mas que é o que censura
a vossa arguição?
26 Porventura
buscareis palavras para me repreenderdes, visto que as razões do desesperado
são como vento?
27 Mas antes
lançais sortes sobre o órfão; e cavais uma cova para
o amigo.
28 Agora,
pois, se sois servidos, olhai para mim; e vede se minto em vossa presença.
29 Voltai,
pois, não haja iniquidade; tornai-vos, digo, que ainda a minha
justiça aparecerá nisso.
30 Há
porventura iniquidade na minha língua? Ou não poderia o meu
paladar distinguir coisas iníquas?
Capitulo 7
1 Porventura
não tem o homem guerra sobre a terra? E não são os seus
dias como os dias do jornaleiro?
2 Como o servo
que suspira pela sombra, e como o jornaleiro que espera pela sua paga,
3 Assim me
deram por herança meses de vaidade; e noites de trabalho me prepararam.
4 Deitando-me
a dormir, então digo: Quando me levantarei? Mas comprida é
a noite, e farto-me de me revolver na cama até à alva.
5 A minha
carne se tem vestido de vermes e de torrões de pó; a minha
pele está gretada, e se fez abominável.
6 Os meus
dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão,
e acabam-se, sem esperança.
7 Lembra-te
de que a minha vida é como o vento; os meus olhos não tornarão
a ver o bem.
8 Os olhos
dos que agora me vêem não me verão mais; os teus olhos
estarão sobre mim, porém não serei mais.
9 Assim como
a nuvem se desfaz e passa, assim aquele que desce à sepultura nunca
tornará a subir.
10 Nunca mais
tornará à sua casa, nem o seu lugar jamais o conhecerá.
11 Por isso
não reprimirei a minha boca; falarei na angústia do meu espírito;
queixar-me-ei na amargura da minha alma.
12 Sou eu
porventura o mar, ou a baleia, para que me ponhas uma guarda?
13 Dizendo
eu: Consolar-me-á a minha cama; meu leito aliviará a minha
ánsia;
14 Então
me espantas com sonhos, e com visões me assombras;
15 Assim a
minha alma escolheria antes a estrangulação; e antes a morte
do que a vida.
16 A minha
vida abomino, pois não viveria para sempre; retira-te de mim; pois
vaidade são os meus dias.
17 Que é
o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas nele o teu coração,
18 E cada
manhã o visites, e cada momento o proves?
19 Até
quando não apartarás de mim, nem me largarás, até
que engula a minha saliva?
20 Se pequei,
que te farei, ó Guarda dos homens? Por que fizeste de mim um alvo
para ti, para que a mim mesmo me seja pesado?
21 E por que
não perdoas a minha transgressão, e não tiras a minha iniquidade?
Porque agora me deitarei no pó, e de madrugada me buscarás,
e não existirei mais.
Capitulo 8
1 Então
respondendo Bildade o suíta, disse:
2 Até
quando falarás tais coisas, e as palavras da tua boca serão
como um vento impetuoso?
3 Porventura
perverteria Deus o direito? E perverteria o Todo-Poderoso a justiça?
4 Se teus
filhos pecaram contra ele, também ele os lançou na mão
da sua transgressão.
5 Mas, se
tu de madrugada buscares a Deus, e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia;
6 Se fores
puro e reto, certamente logo despertará por ti, e restaurará
a morada da tua justiça.
7 O teu princípio,
na verdade, terá sido pequeno, porém o teu último
estado crescerá em extremo.
8 Pois, eu
te peço, pergunta agora às gerações passadas;
e prepara-te para a inquirição de seus pais.
9 Porque nós
somos de ontem, e nada sabemos; porquanto nossos dias sobre a terra são
como a sombra.
10 Porventura
não te ensinarão eles, e não te falarão, e do seu coração
não tirarão palavras?
11 Porventura
cresce o junco sem lodo? Ou cresce a espadana sem água?
12 Estando
ainda no seu verdor, ainda que não cortada, todavia antes de qualquer
outra erva se seca.
13 Assim são
as veredas de todos quantos se esquecem de Deus; e a esperança do
hipócrita perecerá.
14 Cuja esperança
fica frustrada; e a sua confiança será como a teia de aranha.
15 Encostar-se-á
à sua casa, mas ela não subsistirá; apegar-se-á
a ela, mas não ficará em pé.
16 Ele é
viçoso perante o sol, e os seus renovos saem sobre o seu jardim;
17 As suas
raízes se entrelaçam, junto à fonte; para o pedregal
atenta.
18 Se Deus
o consumir do seu lugar, negá-lo-á este, dizendo: Nunca te
vi!
19 Eis que
este é a alegria do seu caminho, e outros brotarão do pó.
20 Eis que
Deus não rejeitará ao reto; nem toma pela mão aos malfeitores;
21 Até
que de riso te encha a boca, e os teus lábios de júbilo.
22 Os que
te odeiam se vestirão de confusão, e a tenda dos ímpios
não existirá mais.
Capitulo 9
1 Então
Jó respondeu, dizendo:
2 Na verdade
sei que assim é; porque, como se justificaria o homem para com Deus?
3 Se quiser
contender com ele, nem a uma de mil coisas lhe poderá responder.
4 Ele é
sábio de coração, e forte em poder; quem se endureceu
contra ele, e teve paz?
5 Ele é
o que remove os montes, sem que o saibam, e o que os transtorna no seu
furor.
6 O que sacode
a terra do seu lugar, e as suas colunas estremecem.
7 O que fala
ao sol, e ele não nasce, e sela as estrelas.
8 O que sozinho
estende os céus, e anda sobre os altos do mar.
9 O que fez
a Ursa, o Orion, e o Sete-estrelo, e as recámaras do sul.
10 O que faz
coisas grandes e inescrutáveis; e maravilhas sem número.
11 Eis que
ele passa por diante de mim, e não o vejo; e torna a passar perante
mim, e não o sinto.
12 Eis que
arrebata a presa; quem lha fará restituir? Quem lhe dirá:
Que é o que fazes?
13 Deus não
revogará a sua ira; debaixo dele se encurvam os auxiliadores soberbos.
14 Quanto
menos lhe responderia eu, ou escolheria diante dele as minhas palavras!
15 Porque,
ainda que eu fosse justo, não lhe responderia; antes ao meu Juiz pediria
misericórdia.
16 Ainda que
chamasse, e ele me respondesse, nem por isso creria que desse ouvidos à
minha voz.
17 Porque
me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas sem causa.
18 Não
me permite respirar, antes me farta de amarguras.
19 Quanto
às forças, eis que ele é o forte; e, quanto ao juízo,
quem me citará com ele?
20 Se eu me
justificar, a minha boca me condenará; se for perfeito, então
ela me declarará perverso.
21 Se for
perfeito, não estimo a minha alma; desprezo a minha vida.
22 A coisa
é esta; por isso eu digo que ele consome ao perfeito e ao ímpio.
23 Quando
o açoite mata de repente, então ele zomba da prova dos inocentes.
24 A terra
é entregue nas mãos do ímpio; ele cobre o rosto dos
juízes; se não é ele, quem é, logo?
25 E os meus
dias são mais velozes do que um correio; fugiram, e não viram
o bem.
26 Passam
como navios veleiros; como águia que se lança à comida.
27 Se eu disser:
Eu me esquecerei da minha queixa, e mudarei o meu aspecto e tomarei alento,
28 Receio
todas as minhas dores, porque bem sei que não me terás por
inocente.
29 E, sendo
eu ímpio, por que trabalharei em vão?
30 Ainda que
me lave com água de neve, e purifique as minhas mãos com sabão,
31 Ainda me
submergirás no fosso, e as minhas próprias vestes me abominarão.
32 Porque
ele não é homem, como eu, a quem eu responda, vindo juntamente
a juízo.
33 Não
há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós
ambos.
34 Tire ele
a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror.
35 Então
falarei, e não o temerei; porque não sou assim em mim mesmo.
Capitulo 10
1 A minha
alma tem tédio da minha vida; darei livre curso à minha queixa,
falarei na amargura da minha alma.
2 Direi a
Deus: Não me condenes; faze-me saber por que contendes comigo.
3 Parece-te
bem que me oprimas, que rejeites o trabalho das tuas mãos e resplandeças
sobre o conselho dos ímpios?
4 Tens tu
porventura olhos de carne? Vês tu como vê o homem?
5 São
os teus dias como os dias do homem? Ou são os teus anos como os anos
de um homem,
6 Para te
informares da minha iniquidade, e averiguares o meu pecado?
7 Bem sabes
tu que eu não sou iníquo; todavia ninguém há
que me livre da tua mão.
8 As tuas
mãos me fizeram e me formaram completamente; contudo me consomes.
9 Peço-te
que te lembres de que como barro me formaste e me farás voltar ao
pó.
10 Porventura
não me vazaste como leite, e como queijo não me coalhaste?
11 De pele
e carne me vestiste, e de ossos e nervos me teceste.
12 Vida e
misericórdia me concedeste; e o teu cuidado guardou o meu espírito.
13 Porém
estas coisas as ocultaste no teu coração; bem sei eu que isto
esteve contigo.
14 Se eu pecar,
tu me observas; e da minha iniquidade não me escusarás.
15 Se for
ímpio, ai de mim! E se for justo, não levantarei a minha cabeça;
farto estou da minha ignomínia; e vê qual é a minha
aflição,
16 Porque
se vai crescendo; tu me caças como a um leão feroz; tornas
a fazer maravilhas para comigo.
17 Tu renovas
contra mim as tuas testemunhas, e multiplicas contra mim a tua ira; revezes
e combate estão comigo.
18 Por que,
pois, me tiraste da madre? Ah! se então tivera expirado, e olho nenhum
me visse!
19 Então
eu teria sido como se nunca fora; e desde o ventre seria levado à
sepultura!
20 Porventura
não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que
por um pouco eu tome alento.
21 Antes que
eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão
e da sombra da morte;
22 Terra escuríssima,
como a própria escuridão, terra da sombra da morte e sem ordem
alguma, e onde a luz é como a escuridão.